Dicas de um formulador para evitar problemas no uso de conservantes em cosméticos

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Conservantes em cosméticos: saiba quais você deve evitar e quais são os mais indicados

 

Um produto cosmético livre de micro-organismos que possam causar danos à saúde humana é uma exigência por parte dos consumidores e dos órgãos responsáveis pela vigilância sanitária do Brasil. Assim, o uso de conservantes ou preservantes – substâncias cuja função é inibir o crescimento de micro-organismos – é muito importante. Além de impedir o desenvolvimento de bactérias, fungos e leveduras que possam causar doenças, os conservantes em cosméticos são essenciais para garantir o bom aspecto da formulação final e aumentar a vida útil dos produtos.

O crescimento de micro-organismos pode provocar mudanças de coloração, odor e consistência das formulações cosméticas. Os conservantes em cosméticos mantêm os produtos livres de deteriorações causadas por bactérias, fungos e leveduras, mas há diversas controvérsias quanto ao seu uso.

Embora pareça simples adicionar conservantes em cosméticos, existem alguns problemas como incompatibilidades químicas com os componentes da fórmula e reações cutâneas indesejadas. É preciso conhecer os principais tipos de conservantes disponíveis e suas propriedades físico-químicas, além de estudos de segurança e compatibilidade com a pele.

Como existe uma variedade enorme de conservantes no mercado à disposição dos formuladores, escrevi esse artigo para te dar algumas dicas importantes para que você evite problemas no uso de conservantes em cosméticos.

 

Definindo o conservante ideal

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O primeiro passo para você definir o conservante ideal para a sua formulação é saber a quantidade final de água que ela terá. Quanto maior a presença de água no produto maior será o risco de contaminação por bactérias, fungos ou leveduras. Emulsões em geral exigem conservantes com atividade tanto bacteriostática quanto fungistática, fazendo-se necessário utilizar misturas de conservantes de amplo espectro de atividade.

Certifique-se que o sistema conservante escolhido (um conservante ou uma mistura deles) apresente proteção em relação aos principais micro-organismos que podem afetar a formulação, ou seja, que ele atue contra bactérias, fungos e leveduras, promovendo assim um amplo espectro de proteção. Isso é fundamental para aumentar a vida útil do produto.

Além disso é necessário conhecer suas propriedades físico-químicas, pois assim é possível prever incompatibilidades químicas com os componentes da fórmula (que podem levar até à inativação do conservante). Atenção também ao pH da formulação. O pH é importante na estabilidade dos conservantes em cosméticos, sendo que variações de pH podem comprometer o sistema conservante da formulação.

A temperatura é outro fator que influencia na estabilidade do sistema conservante. Via de regra, o ideal é adicionar os conservantes ao final do processo de manipulação, após a fase de resfriamento, pois geralmente um de seus componentes pode sofrer degradação em temperaturas acima de 40˚C. É importante ainda avaliar as propriedades organolépticas dos conservantes, pois pode ocorrer interferências na cor, no odor e também no sabor, em caso de produtos para os lábios.

A escolha dos conservantes em cosméticos é um assunto tão importante que foi o tema do meu primeiro conteúdo publicado. Não deixe de reler esse artigo: 3 simples dicas para a escolha correta do conservante.

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A irritação e hipersensibilidade de contato causados pelos conservantes

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Um conservante ideal deve ser eficaz, de amplo espectro de atividade, seguro e suave para a pele. Porém, estudos mostram que os conservantes são um dos componentes dos cosméticos que mais causam irritação e hipersensibilidade de contato, perdendo apenas para as fragrâncias. [1]

Um estudo realizado com 50 voluntários (entre 10 e 29 anos de idade) com suspeita clínica de dermatite devido ao uso de cosméticos comprovou que os conservantes eram responsáveis por 39,3% das alergias. [2]

Na lista dos conservantes em cosméticos com maior potencial irritativo estão os parabenos (como propilparabeno, metilparabeno e etilparabeno), os compostos liberadores de formaldeído (como diazolidinil ureia, imidazolidinil ureia e quatérnio-15), a metilisotiazolinona e o triclosan.

De acordo com o Environmental Working Goup, o triclosan não é indicado para pessoas de pele sensível, pois apresenta alto potencial de agressividade. [3]O triclosan é permitido no Brasil para uso em concentrações de até 0,3% em produtos de higiene pessoal, cosméticos e perfumes, de acordo com a RDC N° 29 de 1° de junho de 2012 (Anvisa) [4], mas o SCCP europeu (comité científico dos produtos de consumo) considera que o uso de triclosan nas concentrações de, no máximo, 0,3% em todos os produtos cosméticos não é seguro devido ao tamanho da exposição agregada. Para cosméticos sem enxágue (leave-on), como loções corporais, essa concentração não é considerada segura para os consumidores devido à alta exposição. [5]

Já é conhecido o maior risco de dermatite de contato por cosméticos pelos conservantes das formulações. Groot et al. (1988) demonstraram em um estudo realizado com 119 pacientes, cujo objetivo era determinar quais eram os componentes presentes em cosméticos que seriam responsáveis por dermatite de contato, que o sistema conservante metilisotiazolinona e metilcloroisotiazolinona provocou reação em 33 paciente (27,7%). [6]

Estudos alertam para o aumento dos casos de hipersensibilidade/alergia de contato à metilisotiazolinona (MIT/MI) em cosméticos. Além da alta concentração de metilisotiazolinona usada, o aumento dos casos de sensibilização também pode ser explicado pelo fato de que o número de cosméticos que contêm este conservante (produtos de cuidados do bebê, banhos, maquiagem, cabelo, unhas, cuidados com a pele e proteção solar) cresceu entre 2007 e 2010, chegando a ser chamada de “alergia do ano” em 2013 nos EUA. [7] Seu uso é permitido em cosméticos no Brasil se utilizada na concentração máxima 0,01% (RDC N° 29 de 1° de junho de 2012) [4], mas desde 2013 a associação europeia de fabricantes de cosméticos recomenda o não uso dessa substância, sendo a metilisotiazolinona (MIT) proibida em cosméticos sem enxágue (leave-on) a partir de 12 de fevereiro de 2017 na União Europeia.

As mesmas propriedades desinfetantes dos conservantes podem causar as reações alérgicas, principalmente se aplicados sobre a pele lesada ou danificada. O uso de cosméticos sobre a pele irritada ou inflamada aumenta o risco de efeitos colaterais, devido, principalmente, aos conservantes empregados na formulação. Além disso, há uma clara correlação entre a frequência de aplicações cosméticas e o desenvolvimento de alergias. Por isso, para emulsões de uso diário se deve redobrar a atenção na hora de escolher o conservante da sua formulação.[1]

Além de irritar a pele lesada, os conservantes podem ser fonte de xenoestrógenos (no caso dos parabenos). Alguns estudos relatam efeitos no sistema reprodutivo de ratos machos (in vivo), inibição da atividade transcricional induzida pela testosterona (in vitro) e propriedades estrogênicas por competir com o 3H-estradiol pela ligação com o receptor estrogênico (in vivo). O butilparabeno é considerado o parabeno com ação xenoestrógena mais potente, mas outros parabenos (como metil-, etil- e propilparabeno) também apresentam leve ação estrogênica. [8,9]Outros estudos alertam ainda para os efeitos estrogênicos e antiandrogênicos por semelhanças estruturais de compostos conservantes com fração fenólica; dados demonstram que os parabenos que contêm um grupo metila, butila ou propila, assim como o triclosan, possuem efeito antiandrogênico com potências diferentes. [10]

Outra classe de conservante bastante polêmica é a dos compostos liberadores de formaldeído (como diazolidinil ureia, imidazolidinil ureia e quatérnio-15). Recomenda-se que pacientes alérgicos ou com pele sensível evitem o uso de cosméticos leave-on preservados com diazolidinil ureia, imidazolidinil ureia, quatérnio-15 ou DMDM hidantoína. [11] Além de serem considerados irritantes para a pele, há o potencial risco de carcinogenicidade, pois o formaldeído é um composto classificado como carcinogênico e teratogênico para humanos. [12]

Para você consultar os conservantes em cosméticos e a concentração máxima permitida no Brasil: Resolução – RDC N° 29 de 1° de junho de 2012 “Lista de substâncias de ação conservante permitidas para produtos de higiene pessoal, cosméticos e perfumes” e dá outras providências.

 

Os conservantes mais seguros

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Alguns conservantes são considerados mais seguros como o fenoxietanol, por exemplo. Conservantes a base de caprilil glicol ou caprilato de glicerila também são mais suaves para a pele. Um exemplo comercialmente disponível é o Optiphen™ (INCI Name: Phenoxyethanol and Caprylyl Glycol), uma mistura de fenoxietanol e caprilil glicol.

Essa mistura oferece vantagens, visto que o caprilil glicol possui excelente efetividade contra bactérias, mas sua ação contra fungos é relativamente baixa, e o fenoxietanol é eficaz contra grande espectro de leveduras e fungos. Assim, o Optiphen™ apresenta ação antimicrobiana de amplo espectro, além de ser eficaz em ampla faixa de pH (4-8). A concentração usual em cosméticos é de 0,75% a 1,5%, e geralmente não necessita ser associado a outro conservante.

 

Resumindo…

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Não deixe a escolha do conservante para o final do processo de desenvolvimento. Encontrar o conservante ideal, que atenda a todos os critérios de conservação, segurança e toxicidade, é um desafio para os formuladores.

Não se esqueça de garantir a eficácia do seu sistema conservante através de testes de desafio, ou Challenge Tests, que devem ser realizados durante os testes de estabilidade das amostras.

Os conservantes proporcionam durabilidade e proteção contra o crescimento de bactérias e de fungos, mas estão em segundo lugar na lista dos componentes dos cosméticos que mais causam irritação e hipersensibilidade de contato, perdendo apenas para as fragrâncias.

Embora existam diversas controvérsias quanto ao seu uso, os conservantes em cosméticos são muito importantes e vários são aprovados e aplicados em uma infinidade de produtos. Escolha conservantes a base de caprilil glicol e fenoxietanol ao invés dos tipos mais agressivos para a pele, e evite os conservantes citados por estudos como sendo mais irritantes ou sensibilizantes:

  • quatérnio-15;
  • imidazolidinil ureia;
  • diazolidinil ureia;
  • metilisotiazolinona;
  • DMDM hidantoína;
  • triclosan;
  • parabenos.

 

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Referências:
[1] Zukiewicz-Sobczak WA, Adamczuk P, Wróblewska P, Zwoliński J, Chmielewska-Badora J, Krasowska E, Galińska EM, Cholewa G, Piątek J, Koźlik J. [Allergy to selected cosmetic ingredients.] Postepy Dermatol Alergol. 201Oct;30(5):307-10.
[2] Tomar J, Jain VK, Aggarwal K, Dayal S, Gupta S. [Contact allergies to cosmetics: testing with 52 cosmetic ingredients and personal products.] J Dermatol. 2005 Dec;32(12):951-5.
[3]  Environmental Working Goup. Top tips for safer products. Disponível em: http://www.ewg.org/skindeep/top-tips-for-safer-products/
[4] Anvisa. Resolução – RDC N° 29 de 1° de junho de 2012.
[5] Scientific Committee on Consumer Products, SCCP. Opinion On Triclosan COLIPA n° P32.
[6] de Groot AC, Bruynzeel DP, Bos JD, van der Meeren HL, van Joost T, Jagtman BA, Weyland JW. The allergens in cosmetics. Arch Dermatol. 1988 Oct;124(10):1525-9.
[7] Pónyai G, Németh I, Temesvári E. [Methylchloroisothiazolinone/Methylisothiazolinone and Methylisothiazolinone Sensitivity in Hungary.] Dermatol Res Pract. 2016;2016:4579071.
[8] Kucińska M, Murias M. [Cosmetics as source of xenoestrogens exposure]. Przegl Lek. 2013;70(8):647-51.
[9] Golden R, Gandy J, Vollmer G. [A review of the endocrine activity of parabens and implications for potential risks to human health.] Crit Rev Toxicol. 2005 Jun;35(5):435-58.
[10] Chen J, Ahn KC, Gee NA, Gee SJ, Hammock BD, Lasley BL. [Antiandrogenic properties of parabens and other phenolic containing small molecules in personal care products.] Toxicol Appl Pharmacol. 2007 Jun 15;221(3):278-84.
[11] de Groot AC, White IR, Flyvholm MA, Lensen G, Coenraads PJ. [Formaldehyde-releasers in cosmetics: relationship to formaldehyde contact allergy. Part 1. Characterization, frequency and relevance of sensitization, and frequency of use in cosmetics.] Contact Dermatitis. 2010 Jan;62(1):2-17.
[12] Pontén A1, Bruze M. [Formaldehyde.] Dermatitis. 2015 Jan-Feb;26(1):3-6.