Entenda a diferença entre um creme aniônico e um não-iônico

creme-aniônico

Acabe de uma vez com essa dúvida e nunca mais erre na hora da adição dos ativos

 

As emulsões são os principais veículos (bases) utilizados em cosméticos e dermocosméticos, sendo as de caráter aniônico e não-iônico as mais utilizadas. As emulsões podem ser classificadas em iônicas (aniônicas e catiônicas) e não-iônicas, sendo que essa classificação dependerá da existência ou não de cargas elétricas na estrutura dos emulsionantes, [1,2]

Continue lendo esse artigo e aprenda mais sobre emulsões aniônicas e não-iônicas, além é claro de entender de uma vez por todas a diferença entre creme aniônico e creme não-iônico. No final do artigo, ainda preparei 9 dicas para você não errar na escolha da melhor base para a adição dos ativos.

 

O que são emulsões aniônicas

Os emulsionantes aniônicos se dissociam em solução aquosa formando íons carregados negativamente. São emulsionantes muito utilizados, possuem geralmente de baixo custo, mas podem ser mais irritantes para a pele que os demais tipos. Um exemplo clássico de uma emulsão base aniônica (creme aniônico) é a obtida com o uso da conhecida cera Lanette N® (álcool cetoestearílico e cetil estearil sulfato de sódio). [1,3]

Os principais representantes dos emulsionantes aniônicos utilizados em emulsões O/A são os emulsionantes de metais alcalinos e de amônio (sais de sódio, potássio ou amônia de ácidos graxos de cadeia longa – estearato de sódio; cetil fosfato de potássio), aminados (trietalomanina) e compostos sulfatados e sulfonados (lauril sulfato de sódio). Para emulsões A/O se utilizam emulsionantes de metais divalentes e trivalentes (sais de cálcio). [2]

 

O que são emulsões não-iônicas

Os emulsionantes não-iônicos não possuem carga específica (carga ionizável), apresentando um balanço (equilíbrio) entre as porções hidrofóbicas e hidrofílicas das moléculas. As substâncias lipossolúveis geralmente emulsionam (estabilizam) sistemas A/O e as hidrossolúveis os sistemas O/A. São representados pelos ésteres de glicol e de glicerol, ésteres de sorbitano, polissorbatos, ésteres de álcoois graxos, ésteres de ácidos graxos e poliglicóis. [1,2]

Como exemplos de emulsionantes não-iônicos podemos citar os ésteres poliglicólicos de ácidos graxos (estearato de polioxietileno 40), álcoois graxos de cadeia longa (cetílico, estearílico e cetoestearílico), ésteres de glicerina e glicólicos (monoestearato de glicerila), ésteres de sorbitano (monoestearato de sorbitano) e polissorbatos (polissorbato 80). Um exemplo de uma emulsão base não-iônica é a obtida pela utilização da base tipo Polawax® (álcool cetoestearílico e monoestearato de sorbitano polioxietileno 20 O.E.). [2,3]

 

Qual a diferença entre emulsões aniônicas e não-iônicas

As emulsões aniônicas podem possuir capacidade detergente, e por isso são utilizadas como emulsões de limpeza, demaquilantes e para formulações de alta permeação cutânea (como um creme aniônico para tratamento). Uma característica importante das emulsões aniônicas é que elas são incompatíveis com ácidos e cátions polivalentes. [2,3]

Os emulsionantes não-iônicos constituem um grupo muito importante porque têm baixa toxicidade, menores problemas de compatibilidade com outros materiais e são menos sensíveis à mudança de pH e adição de eletrólitos. Assim, apresentam como vantagens em relação aos demais tipos de emulsionantes um menor grau de irritabilidade cutânea, baixa toxicidade, baixa sensibilidade aos aditivos (eletrólitos), maior grau de compatibilidade com substâncias diversas e menor sensibilidade às alterações de pH. Porém geralmente apresentam maior custo que os demais. [2,3]

Resumindo, a principal diferença entre uma emulsão aniônica e uma não-iônica é a presença ou não de cargas ionizáveis [2], sendo que esta diferença pode influenciar na estabilidade da formulação final conforme os ativos cosméticos adicionados.

 

Qual a escolha correta da emulsão

Para a manutenção da estabilidade da emulsão é importante que a característica iônica do ativo dermocosmético adicionado seja compatível com a dos emulsionantes empregados na manipulação da emulsão base.3 As emulsões aniônicas, como um creme aniônico para tratamento, são geralmente compatíveis com princípios ativos que requerem veículos com este caráter, como ureia, hidroquinona, di-hidroxiacetona e resorcina. Já as emulsões não-iônicas são compatíveis com ácidos em geral, incluindo o ácido retinoico, alfa-hidroxiácidos, filtros solares, ativos com pH ácido, extratos vegetais, óleos vegetais e vitaminas.

Vou dar alguns exemplos. Vamos falar sobre a hidroquinona, uma substância bastante utilizada em emulsões para tratamento de hiperpigmentações cutâneas, cuja concentração em cremes varia de 2 a 10%. Esse ativo apresenta uma molécula instável, facilmente oxidada e, pelo caráter aniônico, é incompatível com bases não-iônicas em concentrações superiores a 3%. Assim, a hidroquinona deve ser utilizada em uma emulsão base aniônica (creme aniônico). [3]

Outro exemplo é o de um ativo bastante utilizado como hidratante e esfoliante: o ácido glicólico. Ele é um composto não-iônico constituinte do grupo dos alfa-hidroxiácidos. [5] Dessa forma, o ácido glicólico (e os ácidos em geral), devem ser manipulados em uma emulsão base não-iônica. [3]

O maior problema é quando ocorre uma associação de ativos de diferentes características iônicas, como a associação de hidroquinona e ácido glicólico, em uma mesma emulsão. Essa associação é dificultada porque hidroquinona e ácido glicólico deveriam ser veiculados, respectivamente, em emulsão base aniônica e emulsão base não-iônica.[3]

Porém, para esses casos, o ideal é não fazer a manipulação na mesma emulsão base, ou, quando houver estudos de estabilidade e eficácia da associação, escolher a emulsão base mais adequada para a associação. Quando se faz uma associação de ativos de diferentes características iônicas, geralmente a maior estabilidade ocorre na utilização da emulsão tipo aniônica, como por exemplo para as associações de hidroquinona e ácido glicólico3, hidroquinona e ácido kójico [4] e ureia e ácido salicílico [1]. No caso da hidroquinona e ácido glicólico, estudos [3,4] mostram que é possível conseguir uma maior estabilidade físico-química se os ativos forem veiculados em uma emulsão base aniônica (loção ou  creme aniônico) mantida em temperaturas baixas, ao redor de 4°C.

 

Assim, para você não errar na escolha da melhor base para a adição dos ativos dermocosméticos você precisa seguir essas dicas:

  1. Para emulsões de limpeza e demaquilantes utilize os emulsionantes aniônicos;
  2. Para peles infantis e sensíveis escolha emulsionantes não-iônicos;
  3. Para formulação de alta permeação cutânea o ideal é usar emulsionantes aniônicos;
  4. NÃO use emulsões aniônicas para incorporar ácidos e cátions polivalentes;
  5. USE emulsões aniônicas para incorporar ureia, hidroquinona e di-hidroxiacetona;
  6. USE emulsões não-iônicas para incorporação de ativos ácidos;
  7. USE emulsões não-iônicas para formulações de filtro solar;
  8. Para a maioria dos ativos cosméticos a base de escolha é a emulsão não-iônica, mas quando associar ativos de diferentes características iônicas prefira uma emulsão aniônica.
  9. Sempre pesquise por estudos de estabilidade quando precisar associar ativos de diferentes características iônicas, e realize testes de estabilidade sempre que necessário.

 

Espero que essas informações possam, a partir de agora, te auxiliar a trabalhar de maneira correta com creme aniônico, não-iônico e ativos diversos. Com isso você evita incompatibilidades em suas bases e ineficácia no tratamento.

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Referências:
[1] Formulário Nacional da Farmacopeia Brasileira. Brasil. Ministério da Saúde. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. 2.ed. Brasília: Anvisa, 2012. 224 p.
[2] Zanon, Andrea Baldasso. Aspectos teóricos e práticos sobre a avaliação da estabilidade de emulsões manipuladas em farmácia. Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Porto Alegre. 2010. Disponível em: http://www.lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/26791/000758392.pdf?…1
[3] Balbinot F, Agnes EJ. [Avaliação da estabilidade físico-química de emulsões contendo associação de ácido glicólico e hidroquinona.] Disponível em:http://repositorio.unesc.net/bitstream/1/712/1/Fernanda%20Balbinot.pdf
[4] Nicoletti MA, Costa EP, Cosme KZ. [Alteração de coloração de formulações contendo hidroquinona em presença de estabilizante, como parâmetro indicativo de instabilidade em emulsões.] Disponível em: file:///C:/Users/Claudia/Downloads/256-911-1-PB%20(1).pdf
[5] Nardin P, Guterres SS. [Alfa-hidróxiácidos: aplicações cosméticas e dermatológicas.] Caderno de Farmácia,15(1):07-14, 1999. Disponível em: http://www.lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/19373/000296082.pdf
  • Ana Paula Tschaen Tonoli

    Olá, sou estudante de farmácia. Na aula de farmacotécnica aprendemos que a hidroquinona era compatível com gel de natrosol ( não iônico). E no seu artigo recomenda-se se incorporar a hidroquinona em uma base aniônica. Poderia me explicar a diferença?