A promessa das moléculas marinhas como ingredientes de cosméticos inovadores e eficazes

A promessa das moléculas marinhas como ingredientes de cosméticos inovadores e eficazes

 

O mercado de cosméticos cresce mais cada dia. Existe uma demanda muito grande por novos ingredientes e ativos, e além disso, uma necessidade crescente de que esses ingredientes sejam cada vez mais naturais. Você acreditaria se eu te dissesse que existe um ambiente pouco explorado, mas muito rico em recursos, com uma variedade química e biológica muito extensa, a qual já foi comprovada ter muitos ativos que podem ser até melhores do que os convencionais, e todos naturais? Pois é, esse é a promessa que o ambiente marinho nos oferece. Nesse artigo, todo embasado em estudos científicos, eu vou te contar um pouco mais sobre o que já se sabe sobre as moléculas marinhas. Confira:

O ambiente marinho representa uma fonte pouco explorada para a descoberta de novos produtos, apesar de seu alto nível biológico e diversidade química. Com o aumento dos cuidados em relação aos efeitos prejudiciais da exposição crônica aos raios ultravioletas, e um desejo universal de melhorar a forma como apresentam-se os cosméticos, o mercado de novos ingredientes está crescendo, e pedindo por inovações.

Um número crescente de novas moléculas marinhas exibe atividades dermatológicas potentes e eficientes. Metabólitos secundários isolados de microalgas, incluindo carotenóides e polifenóis, têm demonstrado atividades anti-oxidantes, anti-idade e antiinflamatórias. Além disso, até mesmo as bactérias extremófilas marinhas têm recentemente demonstrado a produção de moléculas bioativas exopoliméricas, algumas das quais já têm sido comercializadas. Dados disponíveis sobre suas atividades mostram potencial antioxidante, de hidratação e anti-idade, mas ainda é necessário um estudo mais focado sobre seus mecanismos e aplicações, apesar de estudos mais aprofundados acerca de seus mecanismos e atuações serem necessários.

 

Nesse artigo, vamos abordar muitas questões sobre as moléculas marinhas, entre elas:

  • Moléculas fotoprotetoras;
  • Moléculas anti-pigmentação;
  • Moléculas anti-idade;
  • Moléculas de hidratação.

 

Moléculas fotoprotetoras

O aumento do alarme sobre os efeitos prejudiciais dos raios ultravioletas (raios UV) tem gerado uma grande demanda por produtos fotoprotetores. A exposição crônica aos raios UV é conhecida por causar câncer de pele, fotoenvelhecimento e queimaduras solares. UVA e UVB podem danificar o DNA das células da pele, aumentando o risco de câncer de pele via mutações gênicas e imunossupressão. Contudo, o melhor jeito de evitar os danos causados pelos raios UV é evitar a luz solar, e não é sempre que conseguimos fazer isso. O uso frequente de protetores UV tipo antioxidantes é essencial para diminuir os danos causados à pele; mas também existem outros tratamentos para combater os problemas de pele restantes associados com a exposição excessiva a esses raios.

O termo “antioxidante” abrange uma ampla faixa de moléculas com várias atividades, incluindo fotoproteção e eliminação/imobilização de espécies reativas de oxigênio (EROS), portanto previnem danos oxidativos aos componentes celulares. Conforme o corpo envelhece, sua habilidade de regular as EROS diminui, enquanto que a produção de EROS mitocondrial aumenta, logo, os tecidos se tornam mais suscetíveis ao estresse oxidativo com a idade.

Vários antioxidantes existem nas indústrias farmacêuticas, cosméticas e industriais, incluindo o exopolissacarídeo marinho (EPS) deepsane. O deepsane foi isolado de bactérias de profundidades marinhas, as Alteromonas macleodii. Descobriu-se que dois oligossacarídeos contidos no EPS são capazes de proteger os queratinócitos e células de Langerhans de agentes inflamatórios, incluindo os raios UV.

Esse descoberta animadora destaca a grande complexidade química que existe no ambiente marinho, com bactérias extremófilas oferecendo uma plataforma para a futura descoberta de novas moléculas marinhas cosméticas com estruturas e funções inovadoras.

Além disso, existem outros tipos de moléculas marinhas capazes de contribuir com a proteção contra raios UV. Os aminoácidos tipo micosporinas (MAAs) são um bom exemplo. Os MAAs são metabólitos secundários produzidos por seres vivos do ambiente marinho que sofrem com alto estresse causado pelos raios UV, como as cianobactérias, macro e microalgas. Esses componentes são capazes de absorver os raios UV de 310nm a 360nm e evitam a produção de EROS por dissipação, em forma de calor, da energia absorvida. Apesar disso, os MAAs ainda são pouco encontrados no mercado, devido à sua alta reatividade e instabilidade.

Um componente muito conhecido que também é encontrado nas moléculas marinhas são os carotenoides. Estudos mostram que os carotenóides provenientes de moléculas marinhas são altamente mais eficazes do que os carotenóides já conhecidos, como o  α-tocopherol, por exemplo.

 

Moléculas anti-pigmentação

Hiperpigmentação é um sintoma comum de envelhecimento e exposição crônica aos raios UV, frequentemente se apresentando como pontos de pele marrons anormais, particularmente em áreas frequentemente expostas ao sol.

A produção de melanina ocorre nos melanócitos da epiderme via uma série de reações oxidativas, catalisadas pela enzima tirosinase ~criei um post explicando de forma mais completa como ocorre a pigmentação. Clique aqui e leia~. Logo, uma via possível de inibição da hiperpigmentação é a inibição dessa enzima. Foi demonstrado que inibidores polifenólicos de tirosinase derivados de plantas marinhas e algas demonstraram moderado sucesso, ao passo que os inibidores convencionais demonstraram causar irritação.

O inibidor de tirosinase mais eficiente até agora foi isolado da erva marinha Phyllospadix iwatensis, e mostrou 100% mais inibição do que o comercializado atualmente, Arbutin, e além disso apresenta baixa toxicidade.

 

Moléculas anti-idade

Com a expectativa de vida cada vez mais alta em vários países ao redor do mundo, a aparência física do envelhecimento tem se tornado um problema cosmético muito comum. Envelhecimento está geralmente associado com a formação de rugas, de laxismo da pele e hiperpigmentação e pode ser comumente classificado como um dano a longo prazo causado por vários estressores. Danos às proteínas celulares dermais, responsáveis pela síntese de vários componentes estruturais, podem levar à propagação dessas características associadas ao envelhecimento. Apesar dos já mencionados antioxidantes terem a capacidade de retardar a aparência do envelhecimento, outros tratamentos existem para amenizar os sintomas da pele envelhecida, por exemplo a redução das rugas, aumentando a hidratação cutânea e o repreenchimento por colágeno.

O envelhecimento da pele pode ser causado pelo retardamento dos processos celulares e pela progressiva perda das moléculas-chave da matriz da pele dermal, como colágeno e ácido hialurônico.

Altas quantidades de colágeno têm sido extraídas da biomassa marinha, e estudos sobre biocompatibilidade sugerem que o colágeno marinho se apresenta mais eficaz do que o colágeno bovino. Apesar de essa molécula marinha não ser atualmente utilizada em cosméticos, é provável que esse mercado passe a crescer cada vez mais, conforme aumentem os estudos sobre suas funções e atividades.

Proteínas, peptídeos e aminoácidos também são moléculas importantes para a manutenção de uma pele saudável. Moléculas encontradas em ovos do salmão Salmo salar demonstraram ser ingredientes ativos eficazes para o rejuvenescimento da pele, bem como em atividades anti-idade. Macroalgas também se mostram fontes bastante expressivas de moléculas marinhas importantes como aminoácidos e peptídeos, e demonstraram ajudar na manutenção do estoque de colágeno, bem como auxiliar na síntese do mesmo.

 

Moléculas de hidratação

O ressecamento da pele pode ser causado por um desbalance ou redução do fator natural de hidratação do estrato córneo, e por uma interrupção no processo natural de descamação, e também é um sintoma de envelhecimento. Tratamentos comuns para peles ressecadas são hidratantes de uso tópico, os quais contém ingredientes para mimetizar o fator de hidratação natural ou melhorar a absorção de água na pele.

Recentemente, moléculas marinhas alternativas relacionadas à absorção de água têm sido investigadas. Polissacarídeos derivados de crustáceos, phaeophytas e rodophytas têm mostrado possuírem várias qualidades cosméticas desejáveis, tais como retenção de água, atividade antiinflamatória, não-tóxica e abrangem até ações anti microbióticas.

O potencial cosmético de exopolissacarídeos provenientes de bactérias marinhas pode se mostrar um rival dos que são encontrados em plantas e animais terrestres, devido ao seu fácil fornecimento e diversidade bioquímica, que são resultado dos ambientes extremos que tais bactérias habitam.

Com isso, espero ter despertado o seu interesse por esse ambiente tão diverso, bem como sua curiosidade pelas ações incríveis das moléculas marinhas.

Levando em consideração que o mercado de cosméticos é estimado em 430 bilhões de dólares até 2022, é importante que contemos com esse estoque super diverso de substâncias naturais que podem se mostrar como inovações cosméticas. Espero que os estudos sobre esse assunto cresçam cada vez mais, e que em breve possamos nos beneficiar ainda mais das atividades provenientes das moléculas marinhas.

 

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O objetivo desse artigo é contribuir para a elevação do nível técnico de profissionais da área. Para qualquer orientação procure sempre um profissional habilitado como um dermatologista ou farmacêutico.

 

Referências:
E. G. Brunt, J. G. Burgess. [The promise of marine molecules as cosmetic active ingredients] International Journey of Cosmetic Science. Dec 2017.