3 excelentes matérias-primas que você tem no laboratório e não sabe


Não é de agora que trato da importância ao selecionar as matérias-primas para sua formulação. Além da importância que possuem ao transferir qualidade, exercem também papel fundamental na performance do produto acabado. O que muitos técnicos não sabem é que vários desses ingredientes são comuns, econômicos e erroneamente desvalorizados. Nesse artigo eu revelo:

  • 3 execelentes matérias-primas para melhores desenvolvimentos
  • Suas indicações e vantagens
  • A melhor forma de utilizá-las, na prática

 

Matéria-prima 1: niacinamida

Também conhecida como nicotinamida, a niacinamida é encontrada em diversos produtos cosméticos como cremes, loções e sabonetes. Além de ter um preço baixo, ela também apresenta uma série de características que a qualifica como um excelente ativo cosmético. Muitos profissionais não se atentam às vantagens que esse componente possui. É comum ser tratada como coadjuvante em meio às demais matérias-primas da formulação e seu potencial não é aproveitado totalmente.

 

 

Niacinamida em produtos para pele oleosa e sensível

O uso da niacinamida a 3% promove o fortalecimento da barreira cutânea e a hidratação da pele. Isso é possível devido à capacidade que este ingrediente possui de estimular a síntese de ceramidas e ácidos graxos na epiderme. Esses componentes produzidos melhoram a função barreira da pele, já que atuam como uma fina camada protetora, que junto com outros lipídeos, evitarão a perda de água da pele para o ambiente, impedindo assim que a pele fique ressecada e vulnerável às agressões externas. Com mais água retida através da camada de proteção formada, a pele se mantém muito mais hidratada e protegida. Essa condição é fundamental para a pele exercer sua função e manter-se saudável. A utilização da niacinamida traz também a vantagem de proporcionar a hidratação sem deixar o produto oleoso. Muitos profissionais utilizam grandes quantidades de componentes oleosos e oclusivos com o objetivo de melhorar as propriedades hidratantes das formulações. Um exemplo é a vaselina, uma vez que atua criando uma barreira física que impede a perda de água. O fato desse componente ser muito oleoso, comedogênico e também derivado de petróleo, cria objeções na sua escolha como componente hidratante.

 

Niacinamida em produtos clareadores seguros

O uso da niacinamida a 4% promove excelente efeito clareador e iluminador. A niacinamida tem a capacidade de inibir a transferência de melanina dos melanócitos (células que a produzem), para as camadas mais externas da pele. Esse processo é capaz de evitar a propagação de melanina e, consequentemente, o escurecimento de regiões da epiderme, caracterizada por manchas. Por melhorar o fortalecimento da barreira cutânea e a textura da pele, a niacinamida promove a diminuição da palidez da região em que é aplicada, bem como uma maior luminosidade. É importante citar que esse ingrediente não inibe a produção da melanina, mas impede a sua dispersão e escureça áreas da epiderme. Por ser uma matéria-prima segura, a niacinamida não irrita ou sensibiliza a pele como a Hidroquinona e não apresenta ação fotossensibilizante como os Retinóides. Isso permite formular para pessoas com peles sensíveis e que desejam clareamento da pele com segurança. A niacinamida é obtida a partir do ácido nicotínico. Por esse motivo é ideal que quando adquirida, tenha vestígios mínimos desse ácido uma vez que provoca uma reação conhecida como flushing ~ vermelhidão, coceira e sensação de calor no local de aplicação. Ainda sobre a segurança na aplicação, vale a pena citar que peles com acne e rosácea também podem ser beneficiadas com a utilização da niacinamida a 3%.

 

 

Niacinamida de 1 a 5%: vantagens sobre incompatibilidades

No dia a dia da manipulação é muito comum as incompatibilidades entre matérias-primas nas formulações dermatológicas. Esse tipo de problema influencia na rotina do manipulador, por perder tempo e insumos para resolver esses impasses. A niacinamida oferece a vantagem de ser utilizada junto com uma gama de matérias-primas sem que problemas de incompatibilidade ou instabilidade ocorram. Pode ser adicionada em formulações com os ácidos salicílico, glicólico e retinol. Outra vantagem desse componente é sua utilização em vários produtos acabados. Seu uso é indicado em fotoprotetores, cremes e loções corporais e faciais, sabonetes e shampoos. A niacinamida é um agente potencializador para as mais variadas formulações dermatológicas.

 

Aprenda agora a forma correta de utilizar a niacinamida

  • Apresentação: pó branco, solúvel em água e etanol.
  • Como incorporar em emulsões: solubilizar a niacinamida em q.s.p. água destilada ou deionizada, e em seguida adicionar na emulsão já formada. Após a adição, homogeneizar o sistema sob agitação de 1500 – 2500 rpm por 3 minutos.
  • Como incorporar em sabonetes, shampoos e géis: solubilizar a niacinamida em q.s.p. água da formulação, e em seguida homogeneizar. No caso de sabonetes e shampoos utilizar agitação lenta (100 – 300 rpm) para evitar a incorporação de bolhas e formação de espuma no processo de manipulação.

 


 

Matéria-prima 2: vitamina E

Estimada por muitos dermatologistas, a vitamina E ou tocoferol já está há mais de 50 anos presente em produtos para o tratamento da pele. Mesmo por ser uma clássica matéria-prima na cosmetologia, muitos profissionais não conhecem as reais funções desse componente. A vitamina E não é apenas um antioxidante, é também responsável por diversos benefícios para a pele. A compreensão das suas reais funções começa a partir do entendimento de sua atuação na pele. Por ser um revestimento externo, a pele está frequentemente exposta a uma série de agentes ambientais com grande capacidade oxidante, tais como: radicais livres, radiações ultravioletas (UVA e UVB) e poluição. Além do ataque desses agentes externos, a pele sofre a ação prejudicial de radicais livres e de espécies reativas, continuamente formados durante o metabolismo celular. A pele é equipada naturalmente com um sistema antioxidante que atua contra os efeitos nocivos desses agentes. Desse modo, a ocorrência de danos é nula e seu papel de barreira e proteção do corpo é garantido. Por compor esse sistema antioxidante, a vitamina E se torna fundamental para a proteção da pele. É importante ressaltar que os níveis dessa vitamina na pele dependem basicamente de sua ingestão ou aplicação tópica. Isso significa que um cosmético rico em vitamina E responderá positivamente por manter esses níveis saudáveis.

 

Vitamina E aumenta a eficácia na ação fotoprotetora

Utilize a vitamina E a 3%. Sua ação diminui a ardência da pele, formação do eritema solar e vermelhidão, além de também minimizar os efeitos da queimadura solar. Portanto, a vitamina E aplicada em formulações fotoprotetoras otimiza a proteção da pele, combatendo alguns dos efeitos nocivos provocados pela exposição aos raios ultravioletas. Note que esse componente não é um filtro solar e sim um agente que maximiza essa proteção. Seu uso é uma forma simples e econômica de melhorar a eficácia dos produtos contra os efeitos do sol.

 

 

Vitamina E em cremes e loções altamente antioxidantes e protetoras

Uma das vias naturais do corpo no fornecimento de vitamina E para a pele se dá através da produção de sebo pelas glândulas sebáceas. Por ser uma via de fornecimento muito importante dessa vitamina, sua escassez pode tornar a pele seca e vulnerável à ação de agentes externos e internos, provocando dermatites e reações adversas. Bases dermatológicas com concentração de vitamina E a 5% são capazes de contornar a ineficiência das glândulas sebáceas, promovendo a reposição do componente e favorecendo a proteção antioxidante. Sua aplicação melhora as condições de defesa e proteção de pessoas com pele seca, dermatite atópica, além de segura para crianças e gestantes.

 

Vitamina E de 3,0 a 5,0%: alta eficácia e permeação em produtos antienvelhecimento.

A exposição solar é uma das principais causas de envelhecimento extrínseco cutâneo. Os efeitos das radiações ultravioletas degradam componentes importantes para a firmeza da pele e formam uma infinidade de radicais livres, cuja ação a médio e logo prazo podem promover mudanças em sua aparência. Rugas, flacidez, manchas e perda de luminosidade são consequências dessa agressão. Uma forma de proteger a pele se dá por agentes que impedem a oxidação dos lipídeos, importantes para a manutenção de sua função barreira. A adição de vitamina E em formulações cosméticas inibem os danos oxidativos ocasionados pelo ambiente. Outra excelente vantagem ao escolher esse agente antioxidante é sua facilidade de penetrar na pele, em virtude de sua característica lipofílica.

 

Aprenda agora a forma correta de utilizar a vitamina E

  • Apresentação: Líquido levemente viscoso, solúvel em óleos e sistemas com características lipofílicas.
  • Como incorporar em emulsões: adicionar a vitamina E na emulsão já formada. Após a adição, homogeneizar o sistema sob agitação de 1000 – 2000 rpm por 3 minutos.

 

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Matéria-prima 3: glicerina

Dentre as três matérias-primas abordadas nesse artigo, a glicerina com certeza é além de mais comum e conhecida, a que tem o menor preço. É praticamente impossível não tê-la no laboratório, uma vez que é um dos principais componentes de bases dermatológicas. É amplamente utilizada como agente umectante pela indústria cosmética e farmacêutica.

Umectante – componente com grande afinidade pela água, capaz de retê-la na pele e nos produtos cosméticos.

A glicerina ou glicerol, como também é conhecida, é importante para a pele pois atua promovendo a hidratação e possibilitando que sua função de barreira protetora seja exercida adequadamente. Componente do Natural Moisturizing Factor (NMF) ou Fator de Hidratação Natural, a glicerina faz parte de um grupo de componentes com afinidade pela água e que está presente naturalmente na pele, na proteção contra o ressecamento e agressões externas. É necessário que a glicerina seja dissolvida em água para que desempenhe todas as suas funções benéficas na pele. Testes de solução publicados no Skin Research and Technology¹, mostram o desempenho da glicerina em relação a dois veículos diferentes: água e triglicerídeos. Quando dissolvida em água, a glicerina se mostrou eficiente no aumento da hidratação, contra o ressecamento da pele e na redução do eritema. Já quando testada em solução de triglicerídeos nenhum efeito hidratante foi notado, pelo fato da glicerina não se dissolver em componentes lipofílicos. Com base nestes testes, a orientação é utilizar a glicerina sempre em veículos cosméticos que contenham muita água, como por exemplo as emulsões. Já as formulações anidras ~formulações com ausência de água~ devem ser evitadas. Veja abaixo as razões desse componente ser indispensável no desenvolvimento dos seus cosméticos:

 

Glicerina melhora a aparência da pele

Utilize a glicerina de 5,0 a 10%. A primeira ação a favor do antienvelhecimento da pele é a hidratação. A hidratação da pele além de proporcionar boa aparência e maciez, reforça a propriedade de barreira contra fatores ambientais que trazem danos. A glicerina possui um excelente custo-benefício e pode ser utilizada para potencializar as mais diversas formulações cosméticas, melhorando as propriedades da pele sem impactar significativamente no custo.

 

Glicerina atua na recuperação e age contra o ressecamento

O ressecamento da pele está freqüentemente ligado a uma função barreira prejudicada, sendo isso comumente observado em peles atopicas, com dermatite, psoríase e ictioses. É responsável por aumentar a perda de água transepidermal ou TEWL (transepidermal water loss), prejudicando diversas funções enzimáticas necessárias para a descamação normal da pele e resultando em uma aparência seca e escamosa. O teor de água correto é extremamente importante para o funcionamento normal da pele, seu desenvolvimento e posterior descamação na camada mais externa  ~ camada córnea. A aplicação de produtos com alta concentração de glicerina, entre 15 a 20%, auxilia no restabelecimento da hidratação local e consequente recuperação da pele.

 

Glicerina: um excelente hidratante em produtos para idosos

Com o aumento da idade, a quantidade de água na pele se reduz. Isso ocorre em virtude das mudanças estruturais que a pele sofre com o passar dos anos, ficando mais fina, ressecada e frágil. Esse conjunto de características faz com que esse público seja muito mais sensível às agressões externas. Produtos que contenham de 10 a 15% de glicerina propiciam muito mais hidratação e proteção a esse tipo de pele.

 

 

Glicerina deixa as formulações de shampoos e sabonetes líquidos mais suaves

Utilize glicerina a 10%. A glicerina é conhecida por proteger a pele contra substâncias irritantes e por diminuir irritações. Estudos publicados²⁻³ mostram que a pele irritada pela ação de lauril éter sulfato de sódio ~ um tensoativo muito utilizado em formulações de limpeza ~, pode ser beneficiada quando tratada com glicerina. O componente age favorecendo a recuperação e a restauração da sua função barreira, prejudicada pelo tensoativo.

 

 

Aprenda agora a forma correta de utilizar a glicerina

  • Apresentação: líquido viscoso, incolor e de sabor adocicado.
  • Como incorporar em emulsões: solubilizar a glicerina em q.s.p. água destilada ou deionizada, e em seguida homogeneizar. A glicerina pode ser aquecida até 80°C, junto com as fases do sistema.
  • Como incorporar em sabonetes, shampoos e géis: solubilizar a glicerina em q.s.p. água da formulação e em seguida homogeneizar. No caso de sabonetes e shampoos utilizar agitação lenta (100 – 300 rpm) para evitar a incorporação de bolhas e formação de espuma durante o processo de manipulação.

 

O objetivo com o conteúdo desse artigo é promover e compartilhar conhecimento com a nossa comunidade técnica. Por essa razão, eu conto com seu apoio para também construir e compartilhar esse conteúdo. Para qualquer orientação procure sempre um profissional habilitado como um dermatologista ou farmacêutico. Adoraria saber a sua opinião sobre esse artigo. Participe, deixe seu comentário abaixo.

 

Referências bibliográficas:
¹ Sagiv AE, Dikstein S, Ingber A. [The efficiency of humectants as skin moisturizers in the presence of oil]. Skin Research and Technology. 2001 Feb;7(1):32-5. PMID: 11301638 [PubMed – indexed for MEDLINE]
² Atrux-Tallau N, Romagny C, Padois K, Denis A, Haftek M, Falson F, Pirot F, Maibach HI. [Effects of glycerol on human skin damaged by acute sodium lauryl sulphate treatment]. Archives of Dermatological Research. 2010 Aug;302(6):435-41. doi: 10.1007/s00403-009-1021-z. Epub 2009 Dec 31. PMID: 20043170 [PubMed – indexed for MEDLINE]
³ Telofski LS, Morello AP 3rd, Mack Correa MC, Stamatas GN. [The infant skin barrier: can we preserve, protect, and enhance the barrier?]. Dermatology research and practice. 2012;2012:198789. doi: 10.1155/2012/198789. Epub 2012 Sep 4. PMID: 22988452 [PubMed] PMCID: PMC343994