A verdade sobre o bronzeamento que as pessoas insistem em ignorar


Saiba afinal, se é possível ou não obter um bronzeamento saudável a partir da exposição à radiação ultravioleta.

A pele bronzeada ainda é considerada um padrão estético desejável para os brasileiros, sendo que este estereótipo de saúde e beleza teve início no Brasil na década de 1930, quando a frequência de banhos de mar e de piscina aumentou e foram lançados os primeiros bronzeadores. [5] Porém, a crença de que a pele bronzeada torna a pessoa mais atraente ou de que o bronzeamento traz benefícios à saúde pode levar, entre outros riscos, a um aumento da incidência de melanoma cutâneo. [6]

Pensando na importância do assunto, decidi produzir esse artigo com embasamento científico, explicando se é ou não possível um bronzeamento saudável a partir da exposição à radiação ultravioleta.

Nesse artigo você aprenderá:

  • Como ocorre o bronzeamento da pele;
  • Quais as consequências do bronzeamento da pele;
  • Quais os riscos do bronzeamento artificial;
  • O bronzeamento como forma de reposição da vitamina D;
  • A segurança dos autobronzeadores.

Estudos atuais indicam que no Brasil é comum a prática de se bronzear, e as pessoas assumem riscos mesmo depois de alertadas sobre o aumento de neoplasias cutâneas. Pesquisadores da Faculdade de Medicina e da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo verificaram que principalmente entre os jovens, apesar do conhecimento sobre os riscos da exposição excessiva à radiação ultravioleta (UV) e sobre as formas de fotoproteção existentes, prevalece o hábito de expor-se intencionalmente ao sol para ficar com a pele bronzeada. [6]

O Brasil é considerado um país tropical com grande parte de seu território na faixa entre o Equador e o Trópico de Capricórnio. Além disso, a maior parte do país recebe radiação solar a um ângulo próximo de 90 graus durante o verão (que chamamos de ‘sol a pino’), o que coloca  o Brasil como um dos países com maior insolação do mundo. [7] Além do risco do fator geográfico há o risco comportamental: durante o verão, em praias ou piscinas, é comum as pessoas se exporem ao sol por períodos prolongados e em horários de maior risco eritemático (das 10 às 16 horas).

 

 

Entenda como ocorre o bronzeamento da pele

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Nós possuímos uma quantidade de pigmento melânico (melanina) que define a cor básica cutânea, variando conforme fatores genéticos e assim definindo o fototipo (na escala de Fitzpatrick varia de I a VI). A melanina possui um importante papel de proteção solar, visto que quanto mais alto o fototipo, maior é a quantidade de melanina e menor é a sensibilidade ao sol. Após exposição à radiação UV surge uma pigmentação melânica não permanente, a que chamamos de bronzeamento, que tem função fundamental de proteção da pele.

O bronzeamento é considerado uma resposta de defesa da pele contra a exposição solar, que visa aumentar a quantidade do nosso fotoprotetor natural, a melanina. Para conferir proteção máxima ao DNA nuclear contra os efeitos prejudiciais dos raios ultravioleta, a melanina se posiciona sobre os núcleos dos queratinócitos.

A pele possui dois mecanismos principais de bronzeamento: um imediato e um tardio. A exposição à radiação UVA induz uma reação de escurecimento imediato da pele, devido à foto-oxidação do pigmento melanina pré-formado (já existente na pele). [4] O bronzeamento por UVA é causado pela oxidação da melanina e pode ser dividido em escurecimento imediato do pigmento, que ocorre segundos após a exposição e desaparece depois de duas horas, e escurecimento tardio do pigmento, que ocorre entre 2 a 24 horas após a exposição. Já o bronzeamento por UVB é o chamado bronzeamento tardio e ocorre após 72 horas,  sendo causado pelo aumento da produção de melanina estimulada pela radiação UVB. [8]

A exposição ao sol lesa primeiramente as células epiteliais da epiderme, os queratinócitos. A radiação UV absorvida na pele é responsável pela produção de radicais livres com consequente dano ao DNA. [8] Ocorre, posteriormente, um estímulo aos melanócitos (células produtoras de melanina a partir da ação da enzima tirosinase sobre o aminoácido tirosina) para aumento da biossíntese da melanina, resultando em escurecimento da pele e, consequentemente, maior proteção contra a radiação ultravioleta. No bronzeamento tardio da pele não ocorre hiperplasia dos melanócitos, e sim, estimulação funcional dessas células.

 

 

Quais as consequências do bronzeamento da pele

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Quem costuma se expor ao sol frequentemente para obter um bronzeado duradouro precisa ser alertado sobre os riscos dessa prática. A exposição crônica à radiação UV induz ao fotoenvelhecimento e distribuição desigual de melanina (manchas). Entre as lesões pigmentadas mais comuns em pele cronicamente exposta ao sol estão efélides, lentigos solares e ceratoses solares pigmentadas, as quais podem ser consideradas como manifestações de fotoenvelhecimento. Além disso, vários tumores em queratinócitos (como epiteliomas e ceratoses actínicas) estão associados ao aumento da pigmentação da pele, o que sugere uma alteração concomitante da função dos melanócitos. [4]

A radiação UV crônica parece induzir melanomas cutâneos, sendo que as práticas mais frequentemente adotadas para bronzear a pele apresentam risco elevado para o desenvolvimento de melanoma, como exposição prolongada ao sol e em horários próximos ao meio dia. [6]

É comum ainda quem se exponha ao sol diariamente para aumentar a resistência da pele ao sol. De fato, conforme um estudo realizado em pescadores do Recife (PE) expostos diariamente à radiação solar, a exposição crônica e prolongada ao sol promove alterações como hiperceratose, elastose e melanose solar, que levam a uma maior tolerância à radiação ultravioleta. [3]

O aumento do número de camadas celulares na epiderme (hiperceratose), a degradação do colágeno e acúmulo de elastina anormal na derme (elastose) e o aumento do número e da atividade dos melanócitos (melanose) atenuam a penetração da radiação solar nas camadas mais profundas da pele e assim reduzem o risco de um dano maior [3], mas causam envelhecimento cutâneo precoce. É importante destacar que esses mecanismos de defesa variam conforme o fototipo de pele, sendo que no estudo com os pescadores havia predomínio do tipo IV da classificação de Fitzpatrick.

A maioria das neoplasias cutâneas não melanoma são causadas pela exposição crônica ao sol, mas também podem se desenvolver rapidamente como resultado da exposição aguda à radiação ultravioleta. Quem se expõe esporadicamente a radiação UV (exposição aguda) também pode ter aumento do risco de câncer de pele. Estudos mostram que a radiação UV produz além de uma imunossupressão local (com diminuição das células natural killers e alterações na apresentação dos antígenos às células de Langerhans) que reduz a imunidade da pele às infecções, também uma supressão sistêmica, onde o dano induzido ao DNA pela luz UV desencadeia imunodepressão sistêmica mediada pelo linfócito T, o que pode favorecer o aparecimento das neoplasias. [3]

 

 

Quais os riscos do bronzeamento artificial

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A maior preocupação da população em geral para o uso de medidas fotoprotetoras é o eritema ou queimadura solar, um efeito considerado agudo da exposição à radição ultravioleta. Muitos não consideram o “bronzeado dourado” como um malefício da exposição ao sol. Assim, as câmaras de bronzeamento eram vistas como a opção perfeita para quem queria um bronzeado seguro.

As lâmpadas dos aparelhos de bronzeamento emitem predominantemente UVA, radiação que  provoca muito mais bronzeamento do que eritema, havendo necessidade de 1.000 vezes mais UVA que UVB para produzir queimadura. [8] Dados recentes mostram que o bronzeamento artificial, mesmo não causando eritema ou queimaduras solares, é um fator de risco para o desenvolvimento de melanoma mesmo entre pessoas que nunca relataram queimaduras por bronzeamento artificial ou por exposição solar ao ar livre. [1,2]

A ausência de eritema não significa que não houve danos a pele. O eritema não é nem o único e  nem o principal efeito maléfico da radiação ultravioleta. Os efeitos da radiação solar na pele podem ser considerados agudos (eritema ou queimadura, elevação da temperatura da pele, espessamento cutâneo, bronzeamento ou pigmentação) e crônicos (fotoenvelheimento e câncer da pele). A radiação UVA é capaz de ativar agentes fotossensibilizantes endógenos (porfirina, riboflavina e quinonas), produzindo radicais livres de oxigênio (ação direta no tecido conjuntivo) e tem maior efeito imunossupressor que a radiação UVB. [8]

A substituição do sol pelo bronzeamento artificial para manutenção ou obtenção de uma cor considerada mais saudável e atraente eleva o risco de câncer de pele, pois aumenta a exposição À radiação UVA (radiação predominante nesse tipo de procedimento). Isso ocorre de modo mais crítico em indivíduos com fototipos mais vulneráveis (peles mais claras). Estudos mostram ainda que o risco de desenvolver melanoma é maior para usuários que iniciam essa prática mais cedo e permanecem nela por mais tempo. [1,2,6]

A Sociedade Brasileira de Dermatologia condena formalmente o bronzeamento artificial. A realização desse procedimento por motivos estéticos é proibida no Brasil desde 2009.

 

 

Bronzeamento e vitamina D

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Sabemos que a radiação UV (especificamente a UVB) estimula a produção da vitamina D3 (colecalciferol), que apresenta diversos efeitos benéficos para a saúde. Porém, devido aos fatores de risco da exposição à radiação ultravioleta, como redução na quantidade de células de Langerhans e aumento na quantidade de células inflamatórias presentes na derme, envelhecimento precoce, danos ao DNA, eritema e carcinogênese [9], a Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) não indica a exposição intencional como forma de reposição dessa vitamina. De acordo com a SBD esta deve ser obtida através de fontes dietéticas ou suplementação vitamínica. [7]

Além disso, quanto maior o índice de melanina na pele menor será a capacidade desta em sintetizar a vitamina D, ou seja, sua produção a partir da ação da radiação UV ocorre, dentre outros fatores, em função da cor da pele: indivíduos de pele mais escura sintetizam menos quando expostos à mesma quantidade de radiação.

Relembre outras recomendações da  Sociedade Brasileira de Dermatologia para a fotoproteção em nosso artigo (clique aqui). Ele aborda alertas importantes, contra-argumentos e novas indicações sobre as medidas de fotoproteção baseados no Consenso Brasileiro de Fotoproteção lançado em 28 de novembro de 2013.

 

 

Os autobronzeadores são seguros?

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Os autobronzeadores com dihidroxiacetona (DHA), pela sua capacidade de oxidação da camada córnea, tornam a pele de coloração laranja-amarronzada (similar à pele bronzeada) sem exposição à luz UV. [8] Porém, conseguir um bronzeado sem os riscos da radiação UV não classifica esses cosméticos como 100% seguros para a pele.

A maioria dos autobronzeadores do mercado contêm dihidroxiacetona (DHA), um açúcar simples de três carbonos que forma um pigmento temporário (melanoidina) através da reação de Maillard entre o grupo amino da queratina da pele (camada córnea) e o grupamento hidroxila da DHA. Também é possível formular autobronzeadores associando DHA e eritrulose, um açúcar com o mesmo mecanismo de ação da DHA mas que apresenta reação mais lenta, o que faz com que se tenha um efeito resultante “prolongador do bronzeado”. O mecanismo de ação desses autobronzeadores é baseado em uma reação oxidativa (reação de Maillard) que apresenta potencial para formação de radicais livres, que pode ser potencializada pela exposição ao sol. De acordo com pesquisadores da Gematria Test Lab, uma empresa alemã especializada na pesquisa de radicais livres, autobronzeadores com DHA formam produtos de Amadori que geram radicais livres durante a irradiação UV. Esses pesquisadores verificaram que em pele tratada com DHA houve mais de 180% de radicais livres adicionais gerados durante a exposição ao sol em relação à pele não tratada. [12]

Os autobronzeadores também apresentam risco de causar dermatite de contato, principalmente após uso contínuo [10], bem como podem prejudicar o correto diagnóstico do melanoma cutâneo. Pesquisadores da Associação Britânica de Dermatologistas demonstraram em um estudo piloto que embora os autobronzeadores contendo DHA diminuam o risco de melanona maligno por favorecer a redução à exposição aos raios ultravioleta, seu uso pode mudar características de lesões pigmentadas e assim comprometer o diagnóstico por dermatoscopia. [11]

 

 

Portanto, conclui-se que pele bronzeada não é uma pele sadia pois foi danificada pela luz UV solar ou artificial. Assim, é preciso entender que não é possível um bronzeado saudável se expondo à radiação ultravioleta.

Agora é com você! Te convido agora, principalmente após esse assunto polêmico, para criarmos uma corrente em favor do próximo. Comecei, compartilhando com você essas informações. Agora, é a sua parte em compartilhar esse artigo e garantir que muitas pessoas tenham a devida orientação sobre os riscos do bronzeamento. Nós, como profissionais da área, também temos essa responsabilidade sobre a saúde e o bem-estar.

Adoraria saber sua opinião! Deixe seu comentário abaixo sobre o que você mais gostou ou até mesmo alguma crítica sobre esse artigo. Se tiver também alguma dica extra, compartilhe conosco 😉

O objetivo desse artigo é contribuir para a elevação do nível técnico de profissionais da área. Para qualquer orientação procure sempre um profissional habilitado como um dermatologista ou farmacêutico.

 

Referências:
[1] Barton MK. [Indoor tanning increases melanoma risk, even in the absence of a sunburn.] CA Cancer J Clin. 2014 Sep 24. [Epub ahead of print] PMID: 25255978 [PubMed – as supplied by publisher]
[2] Vogel RI, Ahmed RL, Nelson HH, Berwick M, Weinstock MA, Lazovich D. [Exposure to indoor tanning without burning and melanoma risk by sunburn history.] J Natl Cancer Inst. 2014 Jul 16;106(7). PMID: 25031276 [PubMed – indexed for MEDLINE]
[3] BEZERRA, Sarita Maria de Fátima Martins de Carvalho et al. [Efeitos da radiação solar crônica prolongada sobre o sistema imunológico de pescadores profissionais em Recife (PE), Brasil.] An. Bras. Dermatol. [online]. 2011, vol.86, n.2, pp. 222-233. ISSN 0365-0596.
[4] Ortonne JP. [The effects of ultraviolet exposure on skin melanin pigmentation.] J Int Med Res. 1990;18 Suppl 3:8C-17C. PMID: 2227089 [PubMed – indexed for MEDLINE]
[5] Gontijo S. [80 anos de moda no Brasil.] Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira; 1987 citado por SOUZA, Sonia R P de; FISCHER, Frida M  and  SOUZA, José M P de. [Bronzeamento e risco de melanoma cutâneo:revisão da literatura.] Rev. Saúde Pública [online]. 2004, vol.38, n.4, pp. 588-598. ISSN 0034-8910.
[6] SOUZA, Sonia R P de; FISCHER, Frida M  and  SOUZA, José M P de. [Bronzeamento e risco de melanoma cutâneo:revisão da literatura.] Rev. Saúde Pública [online]. 2004, vol.38, n.4, pp. 588-598. ISSN 0034-8910.
[7] Consenso Brasileiro de Fotoproteção da Sociedade Brasileira de Dermatologia. 1ª edição. Rio de Janeiro. 2013.
[8] Gontijo GT, Pugliesi MCC, Araújo FM. [Fotoproteção] Surgical & Cosmetic Dermatology 2009;1(4):186-192.
[9] Balogh TS, Velasco MVR, Pedriali CA, Kaneko TM, Baby AR. [Proteção à radiação ultravioleta: recursos disponíveis na atualidade em fotoproteção.] An Bras Dermatol. 2011;86(4):732-42.
[10] Kimura T. [Contact dermatitis caused by sunless tanning treatment with dihydroxyacetone in hairless descendants of Mexican hairless dogs.] Environ Toxicol. 2009 Oct;24(5):506-12. PMID: 19016307 [PubMed – indexed for MEDLINE]
[11] Gyllencreutz JD, Boström KB, Terstappen K. [Does it look like melanoma? A pilot study of the effect of sunless tanning on dermoscopy of pigmented skin lesions.] Br J Dermatol. 2013 Apr;168(4):867-70. PMID: 23506272 [PubMed – indexed for MEDLINE]
[12] Jung K, Seifert M, Herrling T, Fuchs J. [UV-generated free radicals (FR) in skin: their prevention by sunscreens and their induction by self-tanning agents.] Spectrochim Acta A Mol Biomol Spectrosc. 2008 May;69(5):1423-8. PMID: 18024196 [PubMed – indexed for MEDLINE]