Como o pH de shampoos impacta na sua eficiência

Entenda como o pH de shampoos interfere na saúde e na estética dos cabelos

Você sabia que o pH dos shampoos pode impactar muito no desempenho desses produtos? Não? Então continue lendo esse artigo, pois hoje eu vou falar um pouquinho sobre como o pH dos shampoos impacta diretamente na aparência dos cabelos!

Os shampoos são um dos tipos de cosméticos mais vendidos no mundo todo, já que as pessoas precisam, quase que diariamente, lavar seus cabelos. Mas os shampoos não são somente limpadores do couro cabeludo: eles também têm ação nos fios dos cabelos, interferindo em fatores como brilho, frizz, penteabilidade, etc., além de uma função muito importante, que é tratar condições que podem acometer os cabelos e o couro cabeludo, como dermatites, seborréia, alopécia, psoríase, entre outras.

Os dermatologistas frequentemente prescrevem shampoos para o tratamento de desordens associadas ao cabelo ou ao couro cabeludo. Produtos capilares prescritos geralmente focam em melhorar a densidade do couro cabeludo, enquanto que apenas os produtos cosméticos parecem focar na prevenção de danos. Em alguns casos, as prescrições médicas são baseadas somente nas substâncias ativas para o tratamento das desordens e podem não considerar a estrutura da fibra capilar. Contudo, escolher o shampoo certo (cuidadosamente formulado com foco no ativo e estrutura da base) pode ajudar a aumentar a adesão do paciente ao tratamento envolvendo o uso de shampoos.

Entre muitos fatores que influenciam o resultado final do uso de shampoos, temos a concentração e a qualidade dos surfactantes, a adição de agentes antiestáticos e sobreengordurantes e o pH final da formulação. Nesse artigo vou abordar um pouquinho sobre cada um desses fatores.

 

Os surfactantes

Os surfactantes são moléculas que possuem uma porção hidrofílica e uma porção hidrofóbica. Sua porção hidrofóbica se liga às gorduras (sebo) e sujidades insolúveis em água presentes no cabelo, enquanto que sua porção hidrofílica se liga à água do enxágue, sendo assim removidos dos cabelos e levando consigo as sujidades às quais se ligaram previamente.

Os surfactantes, quando entram em contato com a água podem formar micelas, ou seja, formam uma estrutura em anel com a porção hidrofílica voltada para fora e a porção hidrofóbica para dentro, o que é muito importante para que os shampoos possam se ligar fortemente às gorduras do cabelo, mas também à água, permitindo uma limpeza completa dos cabelos.

Dependendo da carga que a extremidade polar apresenta, os surfactantes podem ser classificados em quatro grupos: aniônicos, catiônicos, anfotéricos e não iônicos. Os principais surfactantes utilizados em sistemas de limpeza são os aniônicos (que possuem cargas negativas). As saponinas, que também são detergentes aniônicos, quando em contato com a água, deixam um resíduo alcalino que é bastante prejudicial ao cabelo e à pele, pois liberam um precipitado na forma de sais de cálcio que se acumulam nos fios do cabelo, deixando-os opacos e embaraçados. Tais efeitos não são observados nos surfactantes utilizados em shampoos, que podem ser, por exemplo, derivados de sulfatações de ácidos graxos (como alquil sulfatos, alquil éter sulfatos), que são agentes limpantes considerados superiores. Alguns exemplos são: lauril sulfato de sódio, lauril sulfato de amônio, lauril éter sulfato de sódio, etc., sendo que o surfactante mais amplamente utilizado em shampoos é o lauril éter sulfato de sódio.

Surfactantes catiônicos, anfotéricos e não iônicos são adicionados a algumas formulações de shampoos para reduzir a eletricidade estática (efeito gerado pelos surfactantes aniônicos). Por serem carregados positivamente, os surfactantes catiônicos se ligam rapidamente às cargas negativas deixadas nos fios dos cabelos pelos surfactantes aniônicos, reduzindo o frizz. Além disso, esses surfactantes também otimizam a formação de espuma e a viscosidade final do produto. A eletricidade estática verificada após o uso de shampoos é o resultado do balanço entre as cargas positivas e negativas durante a remoção do sebo e dos resíduos. A carga negativa das fibras capilares repele as cargas igualmente negativas das micelas. A repulsão das cargas permite o enxágue com água. Contudo, o resultado é um aumento da negatividade pré-existente dos fios e a formação de complexos estáveis que se ligam à queratina, criando uma repulsão entre os fios devido ao excesso de eletricidade estática. Apesar de os agentes catiônicos tentarem neutralizar esse efeito, existe uma interferência importante gerada pelo pH do shampoo, que pode aumentar as cargas elétricas e reduzir a neutralização.

 

pH: definição e importância

O pH (abreviação para potencial hidrogeniônico), indica a acidez, alcalinidade ou neutralidade de um determinado meio. A escala de pH varia de 1 a 14 e assume neutralidade em pH 7.0, sendo que substâncias ácidas possuem pH menor que 7.0 e substâncias alcalinas possuem pH maior que 7,0.

O pH no qual uma proteína ou partícula tem um número equivalente de cargas positivas e negativas é chamado de ponto isoiônico, enquanto que o ponto no qual uma proteína ou partícula não migra em um campo elétrico é chamado de ponto isoelétrico.

O ponto isoelétrico do cabelo é por volta do pH 3.67, enquanto que seu ponto isoiônico é em torno de 5.6. O cabelo atinge neutralidade de cargas quando o pH está próximo ao ponto isoelétrico. Em cabelos clareados, o ponto isoelétrico é atingido em pHs ainda mais ácidos.

Lipídios livres que contém ácidos graxos são um componente importante e essencial da superfície dos cabelos. Quanto mais lipídios livres presentes nas camadas superficiais, mais baixo é o ponto isoelétrico das fibras de queratina. Os lipídios livres são importantes para a absorção de surfactantes e outros ingredientes presentes no cabelo humano. Quando maior o intervalo entre lavagens com shampoos, mais lipídios livres se acumularão e mais baixo será o ponto isoelétrico do cabelo.

Qualquer pH de shampoo superior a 3.67 causa um aumento na negatividade do cabelo, ou seja, um aumento na eletricidade estática e da repulsão entre as fibras. A superfície das fibras capilares tem uma carga negativa por causa do seu baixo ponto isoelétrico.

Quando o cabelo é enxaguado, a água possui pH ao redor de 7.0. Portanto, um aumento na negatividade das fibras ocorre e as micelas são repelidas (lavadas) pelas fibras negativamente carregadas. A carga elétrica negativa gerada irá embaraçar o cabelo e torná-lo difícil de pentear, portanto causando um efeito de frizz. Além disso, em um pH alcalino, o cabelo tem uma capacidade aumentada de absorver água. A água penetra nas cutículas que estão abertas, hidratando as fibras e quebrando as pontes de hidrogênio das moléculas de queratina. A queratina é uma molécula espiral e em formato de hélice, que se mantém nesse formato devido às ligações químicas entre os seus hidrogênios, dissulfetos, ligações iônicas e forças de Van der Waals.

A água causa hidrólise, ou seja, quebra temporariamente as ligações de hidrogênio e torna a queratina maleável e, consequentemente, frágil nas fibras capilares devido à diminuição na elasticidade e aumento na plasticidade, o que significa que o cabelo molhado, se deformado, não retorna ao seu formato original. Quando o cabelo está molhado, as escamas das cutículas se erguem, levando a um aumento da sua remoção, fragmentação e quebra no eixo da fibra.

O pH do couro cabeludo, contudo, é em torno de 5.5, tal qual as outras partes da pele (ou seja, mais alcalino do que os fios do cabelo).

Um estudo realizado com 123 shampoos de marcas internacionalmente comercializadas, comprados na cidade do Rio de Janeiro, verificou que a maioria dos produtos analisados possuíam um pH final maior do que o pH dos fios do cabelo (maior até mesmo que o pH do couro cabeludo). Não existe nenhum padrão que determina o pH dos shampoos, sejam eles comerciais/populares, anticaspa ou shampoos dermatológicos (comercializados sob prescrição médica).

Não é obrigatório que a faixa de pH esteja indicada no rótulo ou especificada na formulação dos produtos. Contudo, isso não é observado nos produtos para uso profissional em salões de beleza, onde 75% dos produtos possuem uma faixa de pH dentro da faixa ótima de 5.5 ou inferior.

De acordo com a literatura atual, o uso dos shampoos com pH maior do que 5.5 pode aumentar a fricção dos fios, causar frizz, quebra do cabelo e aumentar o embaraçamento dos fios.

Após a utilização de um shampoo, é importante que se use um produto condicionador, para que além de devolver um pouco da oleosidade natural dos cabelos, também haja a neutralização das forças eletrostáticas (efeito causado pelas cargas positivas oferecidas pelos surfactantes catiônicos), que gera eliminação do frizz e selagem das cutículas capilares.

No caso de tratamentos capilares recomendados por dermatologistas, muitas vezes não é indicado o uso de condicionadores, portanto, é importante que, nesse tipo de formulação, além do pH dos shampoos ser baixo, sejam adicionados ingredientes que ofereçam emoliência, além de agentes catiônicos.

Contudo, a situação se torna diferente quando analisamos produtos capilares infantis, já que existe uma grande preocupação com a não ardência dos olhos dos bebês e crianças, e, por isso, é necessário que o pH dos shampoos infantis seja próximo ao pH fisiológico, ou seja, entre 6.0 e 7.0. É necessário lembrar que, devido à faixa de pH mais alta, a utilização de shampoos infantis não é recomendada para adultos (principalmente os que possuem cabelos descoloridos).

Shampoos com pH acima de 3,67 frequentemente possuem agentes catiônicos adicionados à sua composição, para que haja diminuição das forças eletrostáticas entre as fibras capilares (reduzindo assim o efeito do frizz e facilitando a penteabilidade dos cabelos). No caso de shampoos para fins de tratamento, raramente são adicionados esses ingredientes, o que gera a necessidade do uso de produtos condicionadores. Contudo, em casos de desordens capilares, os dermatologistas frequentemente desencorajam o uso dos condicionadores, pois esses produtos podem piorar quadros de dermatites seborreicas.

Portanto, podemos concluir que o pH de shampoos é um dos fatores que mais afetam a saúde e a estética do cabelo (já que valores de pH de shampoos superiores a 5.5 podem gerar irritações no couro cabeludo e agravar os efeitos do frizz e do embaraçamento dos fios), porém a adição de agentes catiônicos no produto pode ajudar a amenizar os efeitos estéticos gerados por valores de pH altos.

No caso dos produtos manipulados, podemos concluir que uma forma de contribuir com o tratamento seria o dermatologista prescrever ou solicitar, além do ativo específico para determinado tratamento, agentes catiônicos em formulações de shampoos. Isso poderia possibilitar uma melhor adesão do paciente ao tratamento (que vai observar, além da melhora nas desordens capilares, uma boa aparência nos seus cabelos).

 

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O objetivo desse artigo é contribuir para a elevação do nível técnico de profissionais da área. Para qualquer orientação procure sempre um profissional habilitado como um dermatologista ou farmacêutico.

 

Referências:
Gavazzoni Dias MF, de Almeida AM, Cecato PM, Adriano AR, Pichler J. [The Shampoo pH can Affect the Hair: Myth or Reality?] Int J Trichology. 2014 Jul;6(3):95-9. doi: 10.4103/0974-7753.139078.