4 formas práticas para melhorar a compatibilidade cutânea em emulsões cosméticas

4 formas práticas para melhorar a compatibilidade cutânea

Dicas práticas, simples e eficazes para deixar as emulsões cosméticas mais compatíveis com a pele

Os cosméticos estão presentes na vida cotidiana de homens, mulheres, crianças e idosos, e estes, por definição, não devem alterar a estrutura e a função da pele ou anexos, como cabelos e unhas. Porém, diversos estudos mostram que ocorrem efeitos não desejados após a utilização de cremes hidratantes, sabonetes e outros produtos de beleza comuns no nosso dia-a-dia [1]. Conservantes e emulsionantes, ingredientes presentes em praticamente todas as emulsões cosméticas, podem ser vilões dependendo de sua estrutura química.

Para evitar a irritação, a vermelhidão, o ardor e outros efeitos adversos após o uso desses produtos, é essencial ao formulador estar atento aos ingredientes da formulação.

Descubra, através de 4 dicas práticas, simples e eficazes os cuidados que eu tomo para aumentar a compatibilidade cutânea em minhas emulsões.

 

1. Não use fragrâncias e corantes

Para uma emulsão ser considerada dermocompatível é necessário que, acima de tudo, ela não irrite a pele. Estudos mostram que fragrâncias, conservantes e corantes são os principais componentes dos cosméticos causadores de irritação e hipersensibilidade de contato, sendo as fragrâncias as campeãs em irritabilidade da pele. A hipersensibilidade às fragrâncias geralmente ocorre na forma de dermatite alérgica de contato, urticária e reações de fototoxicidade [1].

Como é quase impossível não usá-las na formulação por serem essenciais para a aceitação do cliente, é preciso encontrar opções. As fragrâncias naturais, embora pareçam menos agressivas, apresentam muitos compostos (presentes nos óleos essenciais) potencialmente alergênicos, como o eugenol, o geraniol e o hidroxicitronelal. Esses compostos fazem até parte de uma mistura de oito fragrâncias (Fragrance Mix) comumente usada como padrão para testes de alergia de contato [1].

Para deixar a sua emulsão com cheiro agradável sem usar fragrâncias você pode optar pelos extratos aromáticos naturais, que são frações voláteis de plantas extraídas fisicamente (sem alterações químicas), muito úteis para mascarar odores das bases cosméticas. A vantagem de se usar esses extratos é que, além de deixarem a emulsão perfumada, permitem que ela seja classificada como fragrance-free e ainda apresentam os benefícios botânicos conforme a planta utilizada [9]. Porém, para evitar qualquer possibilidade de irritação cutânea, escolha os extratos aromáticos comprovadamente isentos de alergênicos.

 

 

Evite também usar corantes em suas formulações. Muitos corantes são substâncias que podem causar reações fototóxicas ou fotoalérgicas, ou seja, que ocorrem sob exposição à luz ultravioleta [1]. Muitas emulsões dispensam o uso de corantes, mas se você precisar usar, opte por corantes isentos em dimetilbenzidina, naftol, aminoazobenzeno e fluoresceína ou derivados, e use sempre a quantidade mínima necessária.

 

2. Escolha conservantes sem parabenos

Os conservantes proporcionam durabilidade e proteção contra o crescimento de bactérias e de fungos, mas estão em segundo lugar na lista dos componentes dos cosméticos que mais causam irritação e hipersensibilidade de contato, perdendo apenas para as fragrâncias. Na lista dos conservantes com maior potencial irritativo estão os parabenos e os compostos liberadores de formaldeído, que, embora apresentem menor alergenicidade em comparação com as fragrâncias, podem irritar a pele lesada [1] e ser fonte de xenoestrógenos (no caso dos parabenos) [2].

As mesmas propriedades desinfectantes desses conservantes podem causar as reações alérgicas, principalmente se aplicados sobre a pele danificada [1]. O uso de cosméticos sobre a pele irritada ou inflamada aumenta o risco de efeitos colaterais, devido, principalmente, aos conservantes empregados na formulação. Além disso, há uma clara correlação entre a frequência de aplicações cosméticas e o desenvolvimento de alergias. Por isso, para emulsões de uso diário se deve redobrar a atenção na hora de escolher o conservante da sua formulação.

Encontrar o conservante ideal, que atenda a todos os critérios de conservação, segurança e toxicidade, é um desafio para os formuladores. Para se ter uma emulsão dermocompatível escolha conservantes a base de caprilil glicol ou caprilato de glicerila ao invés dos tipos parabenos (como propilparabeno, metilparabeno e etilparabeno) ou liberadores de formaldeído (como diazolidinil uréia e imidazolidinil uréia).

Para saber mais como proceder na escolha do conservante, leia também o artigo ‘3 simples dicas para a escolha correta do conservante’.

 

 

3. Use pH fisiológico

Levemente ácido, o pH médio da pele varia de 4,6 a 5,8, e este é considerado um importante indicador funcional e da integridade cutânea [4]. Formulações cosméticas com pH neutro possuem pH 7,0 (ou bem próximo a 7,0), e este não é o valor do pH cutâneo normal.

O pH ácido da pele desempenha um papel fundamental na homeostase da permeabilidade da barreira e da integridade da camada córnea, mas quando a pele é exposta a um pH neutro ou alcalino (ou a um pH diferente do da pele) ocorre perturbação do equilíbrio cutâneo, e a função barreira é prejudicada [4].

Emulsões com pH levemente ácido (4,6 – 5,8) são, portanto, consideradas de pH fisiológico (igual ao da pele), e contribuem para que ocorra proteção da integridade da pele e do chamado “manto ácido cutâneo”.

E importante: essa escolha de pH vale também para as emulsões de limpeza. Sabemos que as reações adversas aos cosméticos dependem tanto do tipo de componente químico presente quanto do tempo de exposição. Por isso os produtos com enxágue (conhecidos como rinse-off) costumam sensibilizar menos a pele que os sem enxágue (leave-on), pois seu tempo de contato com a pele é menor. Mas é essencial, mesmo para as emulsões de limpeza com enxágue, ter pH fisiológico para aumentar a compatibilidade dérmica.

Um estudo realizado no Hospital Nacional de Colombo, Sri Lanka, mostrou que cosméticos de limpeza que apresentavam pH alcalino aumentaram o valor do pH da pele das mãos mesmo após o enxágue, e esse aumento foi significativamente maior após repetidas lavagens. Esse aumento de pH da pele pode prejudicar a função barreira e contribuir para a sensibilização cutânea após uso diário, sendo importante todas as emulsões (rinse-off ou leave-on) terem pH fisiológico [3].

 

 

4. Escolha emulsionantes fosfolipídicos

Emulsionantes são compostos que possuem características hidro e lipofílicas, e por isso emulsificam água e óleo reduzindo a tensão superficial entre essas diferentes substâncias. São, portanto, a base das emulsões. Mas devido a sua estrutura, eles são essencialmente surfactantes (tensoativos), podendo interagir com os lipídios da pele e produzir efeitos negativos no estrato córneo [6].

O lauril sulfato de sódio é um exemplo de surfactante aniônico bem conhecido pelo seu potencial irritativo. Emulsionantes aniônicos tradicionais, como o ácido esteárico e o ácido palmítico, são exemplos de compostos com ação surfactante capazes de aumentar a permeabilidade da barreira, a desidratação e a irritação cutânea. Emulsionantes não iônicos comuns são normalmente menos irritantes que os aniônicos, porém, assim como os etoxilados, podem provocar danos microscópicos na camada córnea por interagirem com os lipídeos da pele [6].

Emulsionantes não etoxilados, como os derivados da oliva (por exemplo: olivato de cetearila e olivato de sorbitano) são opções mais suaves e compatíveis com a estrutura lipídica da pele, pois não danificam a bicamada lipídica, além de minimizarem a perda de água transepidermal (TEWL) [10].

Para aumentar a compatibilidade de suas emulsões uma dica é escolher emulsionantes fosfolipídicos, que apresentam estrutura lamelar compatível com a pele. Os fosfolipídeos, além de serem constituintes naturais das membranas celulares (bicamada fosfolipídica), possuem propriedades anfifílicas que conferem caráter emulsionante, mas com boa tolerância cutânea comparado com outros emulsionantes tradicionais. Os fosfolipídeos, quando combinados com ácidos graxos, mimetizam a estrutura lipídica do estrato córneo  [7,8].

Por isso os emulsionantes fosfolipídicos (como a fosfatidilcolina e a lecitina) são os que possuem melhor afinidade e biocompatibilidade com a pele, formando um filme que reduz a TEWL e aumenta a hidratação do estrato córneo.

 

 

Como disse no início do artigo, é essencial ao formulador estar atento aos ingredientes da formulação. Os cuidados são muitos, mas através dessas 4 dicas práticas, te garanto que será possível aumentar a compatibilidade cutânea de seus desenvolvimentos. Vamos recapitular?

 

Relembre as 4 formas práticas para aumentar a dermocompatibilidade de suas emulsões:

1. Use extratos aromáticos naturais sem alergênicos ao invés das fragrâncias sintéticas ou óleos essenciais.

2. Use conservantes menos irritativos, e não use parabenos ou liberadores de formaldeído.

3. Mantenha sua formulação em pH levemente ácido (4,6 – 5,8) e não neutro.

4. Use emulsionantes fosfolipídicos ou derivados da oliva, e não use emulsionantes aniônicos comuns ou emulsionantes etoxilados.

 

E você? Como  aumenta a dermocompatibilidade de suas emulsões?

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O objetivo desse artigo é contribuir para a elevação do nível técnico de profissionais da área. Para qualquer orientação procure sempre um profissional habilitado como um dermatologista ou farmacêutico.

 

 
Referências:
[1] Zukiewicz-Sobczak WA, Adamczuk P, Wróblewska P, Zwoliński J, Chmielewska-Badora J, Krasowska E, Galińska EM, Cholewa G, Piątek J, Koźlik J. [Allergy to selected cosmetic ingredients.] Postepy Dermatol Alergol. 2013 Oct;30(5):307-10. PMID: 24353491 [PubMed]
[2] Kucińska M, Murias M. [Cosmetics as source of xenoestrogens exposure]. Przegl Lek. 2013;70(8):647-51. PMID: 24466711 [PubMed – indexed for MEDLINE]
[3] Gunathilake HM, Sirimanna GM, Schürer NY. [The pH of commercially available rinse-off products in Sri Lanka and their effect on skin pH.] Ceylon Med J. 2007 Dec;52(4):125-9. PMID: 18286774 [PubMed – indexed for MEDLINE]
[4] LEONARDI, Gislaine Ricci; GASPAR, Lorena Rigo  and  CAMPOS, Patrícia M. B. G. Maia. [Estudo da variação do pH da pele humana exposta à formulação cosmética acrescida ou não das vitaminas A, E ou de ceramida, por metodologia não invasiva.] An. Bras. Dermatol. [online]. 2002, vol.77, n.5, pp. 563-569. ISSN 1806-4841.
[5] Fiume Z. [Final report on the safety assessment of Lecithin and Hydrogenated Lecithin.] Int J Toxicol. 2001;20 Suppl 1:21-45. PMID: 11358109 [PubMed – indexed for MEDLINE]
[6] Levin J, Miller R. [A Guide to the Ingredients and Potential Benefits of Over-the-Counter Cleansers and Moisturizers for RosaceaPatients.] J Clin Aesthet Dermatol. 2011 Aug;4(8):31-49. PMID: 21909456 [PubMed]
[7] Literatura NIKKOL GROUP, NIKKO CHEMICALS CO.
[8] Literatura Lucas Meyer Cosmetics.
[9] Literatura Carrubba In.
[10] Literatura B&T COMPANY.